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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Como eu não possuo...



Olho em volta de mim. Todos possuem ---

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minhalma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo para ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lodo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse --- ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim --- ó ânsia! --- eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases doirados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo...
.
.
.
Mário de Sá-Carneiro...

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