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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sequências...


Eu era pequena. A cozinheira Lizarda

tinha nos levado ao mercado, minha irmã, eu.

Passava um homem com um abacate na mão

e eu inconsciente:

“Ome, me dá esse abacate...”

O homem me entregou a fruta madura.

Minha irmã, de pronto: “vou contar pra mãe que ocê

pediu abacate na rua.”

Eu voltava trocando as pernas bambas.

Meus medos, crescidos, enormes...

A denúncia confirmada, o auto, a comprovação do delito.

O impulso materno...conseqüência obscura da

escravidão passada,

o ranço dos castigos corporais.

Eu, aos gritos, esperneando.

O abacate esmagado, pisado, me sujando toda.

Durante muitos anos minha repugnância por esta fruta

trazendo a recordação permanente do castigo cruel.

Sentia, sem definir, a recreação dos que ficaram de fora,

assistentes, acusadores.

Nada mais aprazível no tempo, do que presenciar a

criança indefesa

espernear numa coça de chineladas.

“é pra seu bem,” diziam, “doutra vez não pedi fruita na rua.”...
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Cora Coralina...

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