Pesquisar este blog

Meus Vídeos...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Romanza...


Branca mulher de olhos claros

De olhar branco e luminoso

Que tinhas luz nas pupilas

E luz nos cabelos louros

Onde levou-te o destino

Que te afastou para longe

Da minha vista sem vida

Da minha vida sem vista?


Andavas sempre sozinha

Sem cão, sem homem, sem Deus

Eu te seguia sozinho

Sem cão, sem mulher, sem Deus

Eras a imagem de um sonho

A imagem de um sonho eu era

Ambos levando a tristeza

Dos que andam em busca do sonho.


Ias sempre, sempre andando

E eu ia sempre seguindo

Pisando na tua sombra

Vendo-a às vezes se afastar

Nem sabias quem eu era

Não te assustavam meus passos

Tu sempre andando na frente

Eu sempre atrás caminhando.


Toda a noite em minha casa

Passavas na caminhada

Eu te esperava e seguia

Na proteção do meu passo

E após o curto caminho

Da praia de ponta a ponta

Entravas na tua casa

E eu ia, na caminhada.


Eu te amei, mulher serena

Amei teu vulto distante

Amei teu passo elegante

E a tua beleza clara

Na noite que sempre vinha

Mas sempre custava tanto

Eu via a hora suprema

Das horas da minha vida.


Eu te seguia e sonhava

Sonhava que te seguia

Esperava ansioso o instante

De defender-te de alguém


E então meu passo mais forte

Dizia: quero falar-te

E o teu, mais brando, dizia:

Se queres destruir... vem.


Eu ficava. E te seguia

Pelo deserto da praia

Até avistar a casa

Pequena e branca da esquina.

Entravas. Por um momento


Esperavas que eu passasse

Para o olhar de boa-noite

E o olhar de até-amanhã.


Uma noite... não passaste.

Esperei-te ansioso, inquieto

Mas não vieste. Por quê?


Foste embora? Procuraste

O amor de algum outro passo

Que em vez de seguir-te sempre

Andasse sempre ao teu lado?


Eu ando agora sozinho

Na praia longa e deserta

Eu ando agora sozinho

Por que fugiste? Por quê?

Ao meu passo solitário

Triste e incerto como nunca

Só responde a voz das ondas

Que se esfacelam na areia.


Branca mulher de olhos claros

Minha alma ainda te deseja

Traze ao meu passo cansado

A alegria do teu passo

Onde levou-te o destino

Que te afastou para longe

Da minha vista sem vida

Da minha vida sem vista?...
.
.
.
Vinicius de Moraes...

Nenhum comentário:

Postar um comentário