Pesquisar este blog

Meus Vídeos...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Omissão...


Não é estranho

que um poeta político

dê as costas a tudo e se fixe

em três ou quatro frutas que apodrecem

num prato

em cima da geladeira

numa cozinha da Rua Duvivier?


E isso quando vinte famílias

são expulsas de casa na Tijuca,

os estaleiros entram em greve em Niterói

e no Atlântico Sul começa

a guerra das Malvinal.


Não é estranho?

por que então

mergulho nessa minicatástrofe

doméstica

de frutas que morrem

e que nem minhas parentas são?

por que

me abismo

no sinistro clarão dessas formas

outrora coloridas

e que nos abandonam agora inapelavelmente

deixando a nossa cidade

com suas praias e cinemas

deixando a casa

onde frequentemente toca o telefone?

para virar lama.


II


É compreensível que tua pele se ligue à pele dessas frutas que apodrecem

pois ali

há uma intensificação do espaço, das forças

que trabalham dentro da polpa

(enferrujando na casca

a cor

em nódoas negras)

e ligam

uma tarde a outra tarde e a outra ainda

onde

bananas apodreceram

subvertendo a ordem da história humana, tardes

de hoje e de ontem

que são outras cada uma em mim

e a mesma talvez

no processo noturno da morte nas frutas

e que te ligam a ti através das décadas

como um trem que rompe a noite

furiosamente dentro

e em parte alguma

- é compreensível

que dês as costas à guerra das Malvinas

à luta de classes

e te precipites nesse abismo

de mel

que o clarão do açúcar nos cega

e diverte ser espectador da morte, que é também a nossa,

e que nos atrai com sua boca de lama sua vagina

de nada

por onde escorregamos docemente no sono

e é bom morrer

no teatro

vendo morrer

pêras ardendo

na sua própria fúria

e urinando

e afundando em si mesmas

a converter-se em mijo, a pêra, a banana ou o que seja

e assistes

à hecatombe

no prato

sob uma nuvem de mosquitos

e nao ouves o clamor da vida

aqui fora

na rua na fábrica na favela do Borel

não ouves

o tiro que matou Palito

e não ouves, poeta,

o alarido da multidão que pede emprego

(são dois milhões sem trabalho

há meses

sem ter como dar de comer à família

e cuja história

é assunto arredio ao poema).


É a morte que te chama?

É tua própria história

reduzida ao inventário de escombros

no avesso do dia

e não mais a esperança

de uma vida melhor?

que se passa, poeta?

adiaste o futuro?...
.
.
.
Ferreira Gullar...

Nenhum comentário:

Postar um comentário