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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Muitas vozes...


Meu poema

é um tumulto:

a fala

que nele fala

outras vozes

arrasta em alarido.

(estamos todos nós

cheios de vozes

que o mais das vezes

mal cabem em nossa voz:

se dizes pêra

acende-se um clarão

um rastilho

de tardes e açúcares

ou

se azul disseres

pode ser que se agite

o Egeu

em tuas glândulas)


A água que ouviste

num soneto de Rilke

os ínfimos

rumores de capim

o sabor

do hortelã

(essa alegria)

a boca fria

da moça

o maruim

na poça

a hemorragia

da manhã

tudo isso em ti

se deposita

e cala.

Até que de repente

um susto

ou uma ventania

(que o poema dispara)

chama

esse fósseis à fala


Meu poema

é um tumulto, um alarido:

basta apurar o ouvido...
.
.
.
Ferreira Gullar...

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