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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Copacabana 1945...


Ele é que é cheio, eu sou oco.


I

As fichas finais do jogo

foram recolhidas: fecha-se

o cassino; abre-se em fogo

o coração que devora.

Vejo em vez de eternidade

no relógio minha hora.


E se quiser vejo a tua.

Às cinco tinhas encontro

num cotovelo de rua.


As cigarras do verão

tiniam quando sugavas

teu uísque com sifão.


Às onze no Wunder Bar

por meio acaso encontravas

a mulher que anda no ar.


Às três no Copacabana

uma torpeza uterina

pestana contra pestana.


Às quatro e pouco saías,

comias um boi às cinco,

às seis e meia morrias.


Às duas ressuscitavas,

às cinco tinhas encontro,

às sete continuavas.


II

A mensagem abortada

de Copacabana perde-se

na viração: não é nada.


Morre um homem na polícia.

Tantos casos. Não é nada:

os jornais dão a notícia.


Uma criança que come

restos na lata de lixo

não é nada: mata a fome.


Não é nada. A favela

pega fogo. Não é nada:

faz-se um samba para ela.


Um moço mata a família

e se mata. Não é nada:

poupa o drama à tua filha.


Uma menina estuprada.

Uma virgem cai do céu.

Nada. Copacabanada.


III

Dava um doce calafrio

no esmalte azul recortado

subito à tarde um navio.


O mistério transparente

do navio que passava

é ter tornado presente:

por fantasia do fado

naquele tempo ao passar

já parecia passado.


Quando ele achava o caminho

na ponta do Arpoador

eu ficava mais sozinho.


Pois um homem-gaivota

segue um barco, mesmo quando

não lhe conhece a derrota.


Latitude, longitude

compasso de meu exílio...

Um homem sempre se ilude.


E quando o mar sem navio

ficava, eu olhava para trás

e me embrulhava no Rio.


IV

Anoitecia em cristais,

em paz de pluma tornando

à dor de Minas Gerais.


A dor que dá mas devora

como um blues comercial

no carro, quando é a hora.


E quando à janela o cone

de sombra me abismava

eu ligava o telefone.


Esse aparelho surdia

da ramagem de meus brônquios,

negra liana, e subia

em tropismos machucados,

pelas calhas do silêncio,

pelos terraços pasmados,

pela traquéia das áreas,

como tromba de elefante

ou aranhas solitárias

articuladas ao fio,

como língua de serpente

a vasculhar o vazio,

a buscar qualquer canal

de anou (ou fosse miragem!)

no deserto vertical.


V

Às vezes chegava a lua

no despudor deslumbrante

da mulher que chega nua.


A mulher transvertebrada

entornando-se amorosa

nas vagas da madrugada.


Algumas foram no peito

do casto lençol do céu

para o cosmo do teu leito.


VI

Copacabana, golfão

sexual: soma dois corpos

mas divide solidão.


VII

Pelas piscinas suspensas,

pelas gargantas dos galos,

pelas navalhas intensas,

pelas trades comovidas,

pelos tamborins noturnos,

pelas pensões abatidas,

eu vou por onde vou; vou

pelas esquinas da treva:

Copacabana acabou...
.
.
.
Paulo Mendes Campos...

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