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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Canção beige...


Eu quero fazer a canção

das mulherinhas do meu tempo:

a canção beige, por exemplo,

mole, de lã, morna, sem cor,

quase sem rimas, sem amor,

sem nem um pouco de emoção,

como o esportivo coração

ou como os jerseys, por exemplo,

das mulherinhas do meu tempo.


Porque este é o tempo do cocktail

batido no último black-bottom.

Todas as coisas se desbotam

dentro do copo, todas são

iguais: a casca de limão,

a uva, a cereja...E, no hall do hotel,

no bar, as flores de Chanel

também rodinhas se desbotam

batidas no último black-bottom.


Esta é a canção sem intenção

e inconsequente como um flirt:

a canção beige que reflete

essas bonecas de kasha

jogando golf, tomando chá,

folheando o Vogue...Esta é a canção

em que a apagada sedução

da vida de hoje se reflete

inconsequente como um flirt.


Rádio, grill-room, sports, films e jazz...

Meu lindo século de feltro,

justo no mundo e liso e neutro

como chapéus numa porção

de cabecinhas (que ainda são

a causa louca que me faz

pensar numa canção capaz

de degradar esse tom neutro

do lindo século de feltro...
.
.
.
Guilherme de Almeida...

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