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terça-feira, 9 de outubro de 2012

As águas do Recife...


1


O mar e os rios do Recife

são touros de índole distinta:

o mar estoura no arrecife,

o rio é um touro que rumina.


Quando o touro mar bate forte

nele há o medo de não ficar,

de ter saído, de estar fora,

de quem se recusa a ser mar.


E há no outro touro, o rio,

entre mangues, remansamente,

mil manhas para não partir:

anda e desanda, ainda, sempre.


Mas, se são distintos na ação,

mesma é a razão de seu atuar:

tentam continuar a ser da água

de aquém do arrecife, antemar.



2


Eis por que dentro do Recife

as duas águas vivem lutando,

jogando de queda-de-braço

entre os muros dos cais urbanos.


A que é mar porque, obrigada,

saltou o quebra-mar do porto,

vem, cada maré, desafiar

a água ainda rio para o jogo.


A água que remonta e a que desce

travam então uma queda de braço:

aplicadamente e em silêncio,

equilibradas por espaços.


Um certo instante estão imóveis,

nem maré alta nem baixa, ao par;

até que uma derruba e vence,

e, ao vencer, perder: se exilar...
.
.
.
João Cabral de Melo Neto...

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