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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Além-tédio...


Nada me expira já, nada me vive

Nem a tristeza nem as horas belas

De as não ter e de nunca vir a tê-las,

Fartam-me até as coisas que não tive.


Como eu quisera, enfim d'alma esquecida,

Dormir em paz num leito d'hospital...

Cansei dentro de mim, cansei a vida

De tanto a divagar em luz irreal.


Outrora imaginei escalar os céus

À força de ambição e nostalgia,

E doente-de-Novo, fui-me Deus

No grande rastro fulvo que me ardia.


Parti. Mas logo regressei à dor,

Pois tudo me ruíu...Tudo era igual:

A quimera, cingida, era real,

A própria maravilha tinha cor!


Ecoando-me em silêncio, a noite escura

Baixou-me assim na queda em remédio;

Eu próprio me traguei na profundura,

Me sequei todo, endureci de tédio.


E só me resta hoje uma alegria:

É que, de tão iguais e tão vazios,

Os instantes me esvoam dia a dia

Cada vez mais velozes, mais esguios...
.
.
.
Mário de Sá-Carneiro...

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