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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Elegia quase uma ode...



Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.

O verso que mergulha o fundo de minha alma

É simples e fatal, mas não traz carícia...

Lembra-me de ti, poesia criança, de ti

Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço.

Levavas em cada palavra a ânsia

De todo o sofrimento vivido.


Queria dizer coisas simples, bem simples

Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe.

Queria falar em Deus, falar docemente em Deus

Para acalentar tua esperança, minha avó.

Queria tornar-me mendigo, ser miserável

Para participar de tua beleza, meu irmão.

Queria, meus amigos... queria, meus inimigos...

Queria...

queria tão exaltadamente, minha amiga!


Mas tu, Poesia

Tu desgraçadamente Poesia

Tu que me afogaste em desespero e me salvaste

E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste

À borda de abismos irreais em que me lançaste e que depois

eram abismos verdadeiros

Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe

do Espírito Santo, e idéias em lágrimas, e castigos e redenções

mumificados em sêmen cru

Tu!

Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória…

Pobre de mim, tornei-me em homem.

De repente, como a árvore pequena

Que à estação das águas bebe a seiva do húmus farto

Estira o caule e dorme para despertar adulta

Assim, poeta, voltaste para sempre.

No entanto, era mais belo o tempo em que sonhavas...


Que sonho é minha vida?

A ti direi que és tu, Maria Aparecida!

A vós, no pudor de falar ante a vossa grandeza

Direi que é esquecer todos os sonhos, meus amigos.

Ao mundo, que ama a lenda dos destinos

Direi que é o meu caminho de poeta.

A mim mesmo, hei de chamá-lo inocência, amor, alegria,

sofrimento, morte, serenidade

Hei de chamá-lo assim que sou fraco e mutável

E porque é preciso que eu não minta nunca para poder dormir.

Ah

Devesse eu jamais atender aos apelos do íntimo...


Teus braços longos, coruscantes; teus cabelos de oleosa cor;

tuas mãos musicalíssimas; teus pés que levam a dança prisioneira;

teu corpo grave de graça instantânea; o modo com que olhas o

âmago da vida; a tua paz, angústia paciente; o teu desejo irrevelado;

o grande, o infinito inútil poético! tudo isso seria um sonho a sonhar

no teu seio que é tão pequeno...


Ó, quem me dera não sonhar mais nunca

Nada ter de tristezas nem saudades

Ser apenas Moraes sem ser Vinicius!

Ah, pudesse eu jamais, me levantando

Espiar a janela sem paisagem

O céu sem tempo e o tempo sem memória!

Que hei de fazer de mim que sofro tudo

Anjo e demônio, angústias e alegrias

Que peco contra mim e contra Deus!

Às vezes me parece que me olhando

Ele dirá, do seu celeste abrigo:

Fui cruel por demais com esse menino...

No entanto, que outro olhar de piedade

Curará neste mundo as minhas chagas?

Sou fraco e forte, venço a vida: breve

Perco tudo; breve, não posso mais...

Oh, natureza humana, que desgraça!

Se soubesses que força, que loucura

São todos os teus gestos de pureza

Contra uma carne tão alucinada!

Se soubesses o impulso que te impele

Nestas quatro paredes de minha alma

Nem sei o que seria deste pobre

Que te arrasta sem dar um só gemido!

É muito triste se sofrer tão moço

Sabendo que não há nenhum remédio

E se tendo que ver a cada instante

Que é assim mesmo, que mais tarde passa

Que sorrir é questão de paciência

E que a aventura é que governa a vida

Ó ideal misérrimo, te quero:

Sentir-me apenas homem e não poeta!


E escuto... Poeta! triste Poeta!

Não, foi certamente o vento da manhã nas araucárias

Foi o vento... sossega, meu coração; às vezes o vento parece falar...

E escuto... Poeta! pobre Poeta!

Acalma-te, tranqüilidade minha... é um passarinho, só pode ser um passarinho

Eu nem me importo... e se não for um passarinho, há tantos lamentos nesta terra...

E escuto... Poeta! sórdido Poeta!

Oh angústia! desta vez... não foi a voz da montanha? Não foi o eco distante

Da minha própria voz inocente?

Choro.

Choro atrozmente, como os homens choram.

As lágrimas correm milhões de léguas no meu rosto que o pranto faz gigantesco.

Ó lágrimas, sois como borboletas dolorosas

Volitais dos meus olhos para os caminhos esquecidos…

Meu pai, minha mãe, socorrei-me!

Poetas, socorrei-me!

Penso que daqui a um minuto estarei sofrendo

Estarei puro, renovado, criança, fazendo desenhos perdidos no ar…

Venham me aconselhar, filósofos, pensadores

Venham me dizer o que é a vida, o que é o conhecimento, o que quer dizer a memória

Escritores russos, alemães, franceses, ingleses, noruegueses

Venham me dar idéias como antigamente, sentimentos como antigamente

Venham me fazer sentir sábio como antigamente!

Hoje me sinto despojado de tudo que não seja música

Poderia assoviar a idéia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana

Poderia apanhar todo o pensamento da vida e enforcá-lo na ponta de uma clave de Fá!


Minha Nossa Senhora, dai-me paciência

Meu Santo Antônio, dai-me muita paciência

Meu São Francisco de Assis, dai-me muitíssima paciência!

Se volto os olhos tenho vertigens

Sinto desejos estranhos de mulher grávida

Quero o pedaço de céu que vi há três anos, atrás de uma colina que só eu sei

Quero o perfume que senti não me lembro quando e que era entre sândalo e carne de seio.

Tanto passado me alucina

Tanta saudade me aniquila

Nas tardes, nas manhãs, nas noites da serra.

Meu Deus, que peito grande que eu tenho

Que braços fortes que eu tenho, que ventre esguio que eu tenho!

Para que um peito tão grande

Para que uns braços tão fortes

Para que um ventre tão esguio

Se todo meu ser sofre da solidão que tenho

Na necessidade que tenho de mil carícias constantes da amiga?

Por que eu caminhando

Eu pensando, eu me multiplicando, eu vivendo

Por que eu nos sentimentos alheios

E eu nos meus próprios sentimentos

Por que eu animal livre pastando nos campos

E príncipe tocando o meu alaúde entre as damas do senhor rei meu pai

Por que eu truão nas minhas tragédias

E Amadis de Gaula nas tragédias alheias?


Basta!

Basta, ou dai-me paciência!

Tenho tido muita delicadeza inútil

Tenho me sacrificado muito demais, um mundo de mulheres em excesso tem me vendido

Quero um pouso

Me sinto repelente, impeço os inocentes de me tocarem

Vivo entre as águas torvas da minha imaginação

Anjos, tangei sinos

O anacoreta quer a sua amada

Quer a sua amada vestida de noiva

Quer levá-la para a neblina do seu amor...


Mendelssohn, toca a tua marchinha inocente

Sorriam pajens, operárias curiosas

O poeta vai passar soberbo

Ao seu abraço uma criança fantástica derrama os óleos santos das últimas lágrimas

Ah, não me afogueis em flores, poemas meus, voltai aos livros

Não quero glórias, pompas, adeus!

Solness, voa para a montanha, meu amigo

Começa a construir uma torre bem alta, bem alta...
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Vinicius de Moraes...

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